Quando eu te vi pelo vidro da loja, nem o reconheci direito. Primeiro eu olhei pros outros rapazes, nenhum com a sua carinha, depois eu reconheci seu rosto, mas não te reconheci. Estava mais gordinho, bem mais, com uma barba mal feita e usando aparelho. Mas era você. Não dava pra negar quando olhei praqueles olhos. Fiquei olhando pelo vidro, você com a camisa polo branca e calça jeans. Eu estava muito nervosa, muito mesmo. Estávamos no Brasil, e você trabalhava numa loja no terraço de um Shopping. Uma amiga te viu e eu fui até lá pra ver se era verdade.
Esperei o seu horário de almoço. Quando saiu, eu perguntei em português se seu nome era Morten. Você logo fechou a cara, um pouco sem paciência. Eu comecei a chorar, te segurei pelos braços e pedi uma explicação de porquê você não me respondeu todos esses anos. Você não queria dizer.
- Me diz, por favor, o que foi que eu te fiz?
Me passaram várias coisas pela cabeça, a primeira foi você ter visto uma foto minha com o menino que eu namorei nos Estados Unidos alguns meses depois de você ter ido embora. Mas era impossível. Você estava sem paciência, e me tratando como se eu fosse uma chata. Isso estava me matando, eu sabia que estava sendo chata, mas precisava de uma resposta depois de tanto tempo.
- Me deixa sair - e revirava os olhos.
Eu insiti e até que você falou. Disse que não gostava do meu jeito, que eu debochava das pessoas, que eu ria da garçonete de um restaurante dos Eua e que me viu rindo da menina da loja ao lado.
Eu li nos olhos dele que aquela era um mentira tremenda. E eu disse:
- Você está mentindo!!! Você não quer me falar a verdade!
Você inventou qualquer desculpa pra não dizer que era porquê havia ficado completamente louco por mim e não queria sofrer.
Disse que já havia me visto há muito tempo do lado de fora da loja.
Acalmamos, fomos fumar um cigarro no terraço do prédio. Eu perguntei como estavam seus pais e sua irmã , você disse que estavam bem, me contou que estudava português há 13 anos, mas que morava no Brasil há 6, por isso que falava sem sotaque.
Eu sentei no degrau debaixo e você no de cima, estava um pouco empoeirado e eu apoiei minha mão no seu joelho e ficamos calados fumando e curtindo o momento. Você nem fumava, era um bebê, que até brigava comigo quando eu mandava um "fuck!". E estava lá, bem rebelde.
Depois, voltamos pra dentro do shopping, e você estava mais alegre. Me abraçava forte, e a gente brincava. Você falou: Dá até vontade de te dar um beijo, e encostou a boca na minha rindo, me abraçando e me empurrando pra trás. E eu fechei a boca, rindo bastante também e disse: Não quero, não quero!
E assim, eu acordei.
Está tudo resolvido agora, não está? Finalmente nos reencontramos. Conversamos e vimos que crescemos, estamos bem diferentes, não existe nada nem parecido com amor, paixão ou qualquer coisa. Ficou um carinho dos momentos que passamos juntos, nada mais normal.
Agora, eu, tranquilamente, te apaguei das minhas palavras e pensamentos.
Um ponto final, depois de sete anos.
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