sábado, 9 de abril de 2011

Chá da tarde

-Então, é hoje a sessão de iniciantes, eu já falei sobre você com o mestre, vamos chegar lá mais cedo pra sua entrevista.
-Tá, mas ele vai perguntar o quê?
-Ele vai explicar sobre o chá, a religião, vai te fazer algumas perguntas e pronto, é simples.
-Tá...
Era uma chácara, longe da cidade, em meio ao mato tinha uma área coberta, com várias cadeiras e uma mesa no meio, com um arco escrito: União do Vegetal. Era sapo e bicho pra tudo quanto era lado, e era tudo muito normal. Famílias, muitos idosos, alguns adolescentes - que nasceram no meio - e a maioria tipo pai e mãe, muitos casais. Tive a reunião em que o mestre me explicou sobre o chá, que não era alucinógeno como os outros pensavam, que quem descobriu foram os incas, e que as duas ervas eram colhidas na Amazônia peruana. Eu estava nas nuvens, amarradona, tinham me dito que você voltava no tempo, via várias paradas e que sua vida melhorava. Na real, eu preciso me tornar uma pessoa melhor, e eu já tentei de tudo, tudinho e nada funciona, então eu apelei pra natureza, pro vegetal. Disseram que você repensava sobre suas atitudes, que achava meios para mudar o que era necessário e que você iria refletir muito sobre você mesmo. Eu achei que era tudo o que eu precisava.
Enfim, teve a cerimônia de abertura e todos tomaram o chá. Um gosto muito ruim, muito mesmo, mas deu pra engolir. E eu sabia que os efeitos iriam demorar. Sentei na cadeira, com o travesseiro que me aconselharam levar, e fiquei olhando as pessoas, algumas de olhos fechados e outros de olhos abertos. Começa uma música, do Roberto Carlos - juro, e uns vinte minutos depois ela veio, a Borracheira! Sim, borracheira é o nome da onda que você tem, que com toda a seriedade deles, chamam através de músicas.
Na verdade, eu não tava entendendo mais nada. Eram muitas formas, meus olhos fechados, formas coloridas. Sabe aquele tipo de luneta que a gente tinha quando era criança que via uma imagem e quando vc girava a lente a imagem ia se mexendo? Era aqulo na minha cabeça toda, contra a minha vontade, eu ficava tonta, tentando entender o que era aquela loucura. Um mix de coisas, formas se mexendo e eu pensei: "Fudeu, não vou voltar nunca mais!". E eu comecei a suar, tive febre, tenho certeza, aí abri os olhos pq aquelas formas coloridas estavam me deixando louca e tonta, e virei pra minha amiga:
-Vê se eu tô com febre.
-Não tá não....
Puf, voltei às formas loucas. E então meu espírito saiu, sério, eu estava encostada na cadeira, relaxada, com olhos fechados, e queria sair dali, abrir os olhos de qualquer maneira."Se mexe, vai beber uma água." " Não tenho forças!" " Eu quero me mexer, to tontaaa!" "Mexe, mexe, mexe!!!""Não dáááá!" Eu tava alucidada.
-Mestre, dá licença lá fora? - Alguém falou.
-Sim, pode ir.
E várias pessoas começaram a pedir "licença lá fora", pra ir vomitar. Sim, é sério, mais de 30% das pessoas, tem uma borracheira forte, ou o chá faz mal e eles têm que colocar pra fora. Aquilo me impressionou. Agora eram as formas e o barulho dos vômitos, que todos achavam tão normal, e eu continuava sem me mexer, até que finalmente, eu senti uma emoção muito forte, a mesma sensação de quando eu tô muito bêbada e fecho os olhos quando vou fazer xixi, vem aquele treco, igual quando se leva um susto, sabe? Então, foi o espírito voltando pro meu corpo e eu abri os olhos. Todos de olhos fechados, curtindo sua borracheira. Volto a fechar os olhos, agora quem canta é o mestre! Que parada.... O mestre cantando, aí eu já não sabia se era música do som, ou se era a voz dele e eu o via cantando, mas ainda sim era confuso demais, impossível ele estar cantando daquela maneira, que loucura... Mas ele tava e que voz alta! E então meus olhos se fecharam, começou a chover muito forte, muito mesmo e o barulho da chuva era muito forte, e eu já tava achando que era o fim do mundo, mas ao mesmo tempo eu tinha consciência de que era só uma chuva forte, muito forte, mas parecia mesmo o fim do mundo. E se acabasse ali, meu amigo, eu tava é bem pra caralho!
Nossa!!! Não acredito! O Dênis!!! Eu tinha três anos de idade, estava com um shortinho azul, sem camisa, em Saquarema, agachada com um gravetinho na mão passando no chão, e dava pra sentir tudo! O Dênis lá, agachado também, com aquele cabelo castanho lisinho! Que loucura, eu estava lá com o Dênis!!! Eu jamais lembraria em minha vida que um dia o Dênis existiu! Foi um dia que eu passei com ele, era filho dos amigos dos meus pais e ele morava lá, passamos um dia na casa deles. E aquilo era uma foto que minha mãe tinha guardado. Depois, eu creci um pouco, cheguei aos sete anos, era sexta-feira e eu tava no banheiro da minha escola me arrumando para uma festinha! Mas era o banheiro antes de ser reformado! Eu jamais lembraria que ele sofreu uma reforma! Dava pra ver a madeira da porta, descascada e eu tava muto alegre indo pra festinha! Eu revivi todos os detalhes, as roupas espalhadas pelo chão, a sensação boa de final de semana e minhas amigas lá! Uma delícia! Minha borracheira estava um arraso!
E depois, aos poucos ela foi indo embora, eu fui voltando a realidade, comecei a sentir o frio do mato, e o mestre começou a finalizar a cerimônia e cantou para que a borracheira de todos fosse embora.
Quer acreditem, quer não, minha vida tá muito calma, e tem um sentido maravilhoso... Não sei se foi meu amor que mudou um bocado, mas meu relacionamento tá perfeito! Ele é tudo o que eu quis que ele fosse, e eu sou uma pessoa calma! Viva a União do Vegetal!
Amei, de verdade, foi muito louco, uma experiência única, é uma religião séria, onde há princípios, e tudo o mais. E eu, sem uma religião fixa, estou começando a pensar na idéia de me associar à União. Eu achei tudo muito lindo, muito calmo, muito luz, paz e amor - o lema deles.
Mas que é alucinógeno é....

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