segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Meu querido...

Ela estava com a vida feita, seus dois filhos já na faculdade e seu marido com o bom emprego de sempre. Resolveram se mudar, já moravam naquele apartamento fazia quase vinte anos e então, dentro de uma caixa, que estava dentro de outra caixa, ela achou aquele envelope. Ela resolvera não jogar fora, mas esconder de um jeito que a convencia de que aquilo não existia mais. Nem sabia porque resolvia sempre enganar a si própria daquele jeito tão infantil, mas ela escondeu lá em cima do armário, dentro daquela caixa velha, mas achou. O envelope já amarelado fez passar um filme em sua cabeça: descalça, descabelada, pulseiras no pé, cabelos compridos, a areia macia, e as gargalhadas, ah... as gargalhadas! Não sabia mais o que era isso fazia muitos anos. Só sabia o que era uma risada a toa, um sorriso educado, nada além...  Não ia encarar, claro que não. Seria um divisor de águas abrir aquele envelope, não mesmo. Mas abriu.
"Oi querido,
Gostaria de saber como você e todo o meu amor estão. Sim, todo o meu amor está com você.
Gostaria de saber dos seus pelinhos dourados, e dos seus pés sempre sujos....
Eu não vou lhe entregar esta carta... Depois de todo o meu esforço de te deixar ir, eu não poderia fazer isso.
Gostaria que soubesse que não fui com você porque precisava de mais responsabilidade na minha vida. Não poderíamos viver de amor, apenas, meu bem. Eu não podia deixar meus estudos, preciso me formar, já tenho um emprego... Eu queria mesmo era que você entendesse, mas você não entendeu.
Eu te amo com toda a minha alma e sei que não vou suportar a saudade de você e do meu amor. Foi muito difícil pra mim te dizer tudo com tanta racionalidade, depois daquela temporada que passamos acampando pelas cachoeiras da Chapada, e daqueles dias na praia, em que dizíamos que a cama perfeita era uma "canga na areia", e que teríamos que arranjar um jeito de colocar a cama perfeita na nossa casa... Foi um pouco bobo da minha parte. Era óbvio que você não estava acreditando, eu tava mentindo descaradamente quando disse que preferia uma vida estável, com tudo bem certinho.
Você me conhece como ninguém, e olhava pra mim sem entender nada. Foi quando se virou e foi embora pra sempre. Sua mochila velha e rasgada implorava pra eu ir com vocês e eu a olhava tendo a certeza que todo o meu amor estava lá dentro.
Nem olhou pra trás, eu fiquei lá, parada, tentando me convencer de que tinha tomado a atitude certa, mesmo tendo a certeza de que ficaria sem amor pro resto de minha vida.
Te escrevo pra aliviar um pouco a minha dor. Meus olhos não se cansam de chorar. Acho que não vou nunca mais pra praia, pois sempre vou imaginar a nossa cabana lá, toda de madeira, com um banquinho na frente...
Me desculpe por tudo, me desculpe por te fazer sofrer.
Cuide bem do meu amor."
Ela não sabia....
Não sabia que eles sairíam de mãos dadas com mochilas velhas e rasgadas, parariam numa praia e dormiriam na cama perfeita por algumas noites... Ele teria a idéia de ensinar surf, ela iria organizar a escolinha. Eles eram tão perfeitos e tinham uma harmonia tão linda, que encantava quem os via. E alugariam uma cabana, não era na areia, como queriam, mas era na rua de trás, embaixo de árvores, pois o sol iria aquecer muito a madeira. Organizariam luais, com violão e bebidas típicas. Seriam convidados pra viver na Indonésia, e trabalhar numa ONG que ensinava Surf pra crianças carentes. Iriam, com as mesmas mochilas velhas. E de lá, viajaríam pelo mundo, ensinando crianças carentes, aprederíam várias línguas, teriam muito dinheiro, que não serviria para luxo, mas para viver melhor. Felicidade era uma coisa tão grande e eles tinham tanta, que resolveriam espalhar pelo mundo, com seus dois filhos. Criariam suas próprias ONGs e terminariam suas vidas confortavelmente, no lugar que quisessem e olhariam pra trás tendo a certeza que fizeram a diferença e distribuiram amor pelo mundo.
Ela fechou a carta e com os mesmos pés descalços, foi até a praia. E percebeu, que com tudo que ela ganhou, só perdeu.
Tarde demais.

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