segunda-feira, 16 de maio de 2011

M&m's

Era mais um dia daqueles que eu sabia que sairíamos. Não sabia se era meu namorado, ou amigo, mas era o amor da minha vida. Aquele típico friozinho da noite da Califórnia fazia nossa noite ainda melhor. Era um dia normal. Eu tinha trabalhado e ele estava de folga. Disse que me ligaria. Ligou. E como já havíamos combinado, iríamos ao cinema. Havíamos combinado no dia em que minha escala saiu. Ele programava nossas folgas, me obrigava a folgar nos dias de seu futebol, afinal eu tinha que ver. Ai de mim, se fosse trabalhar no dia do jogo. Ele armava todo o esquema, teve um dia que me fez passar vergonha! Eu havia esquecido do jogo dele de domingo de manhã e um amigo do trabalho havia pedido pra eu trocar com ele, e eu disse que sim, e ele ouviu, disse:
-Não, você não pode trocar não...
-Quê? - Eu e o menino o olhamos.
-Você não pode trocar com ele...
-Não posso?
-Não! Você esqueceu que tem o jogo do seu irmão?
-Jogo do meu irmão?
-É, amanhã é domingo e seu irmão tem jogo de  futebol..
-Ah...- me toquei! Verdade... o jogo do meu irmão.
E era um frio danado que eu sentia naquela arquibancada. Ninguém ia assistir aos jogos de seus maridos, namorados, etc. Eu ia. Ele fazia toda a questão do mundo. Eu ficava lá, com o casaco dele de capuz, com o capuz, claro. Tinha frio, muito frio e na hora de ir embora, no carro, ele ficava todo suado, mas ainda assim, ligava o aquecedor. Eu estava com frio.
Mas voltando... era mais um dia em que íamos no cinema. Saí do trabalho, e fui pra casa dele.
Fumamos um, como de costume também. Era verde-água, delícia. E começamos aquela onda que eu só tinha com ele. Que ele só tinha comigo. Começou o ataque dos dois.
-Calma aí! Calma aí! - Eu falava tentando retomar o folêgo que eu havia perdido de tanto rir - A gente tem que escrever! A gente  tem que escrever pra não esquecer depois nossas viagens!
-Sabe qual a diferença entre o elefante de Ásia e o da África?
-Pára! Pára! Minha barriga tá doendo!
-Porquê você fala "so funny" fazendo essa mãozinha?
-Grrrr... like a lion - com os pés, imitando uma pata de leão.
-Esse quadro é pintado?
-É uma pintura.
-Mas ele é pintado?
-É uma foto de uma pintura.
-Mas um dia ele foi pintado?
-A pintura foi pintada.
-Mas foi pintado algum dia?
-Sabia que existe carangueijo azul?
-Tim-tim.
-Cheang-Cheang?
-Não, tim-tim.
-Weird...
E fomos ao cinema. Enlouquecidos, morrendo de rir, depois de anotar nossas besteiras no papel.
Você escolheu o filme, que não foi o que eu quis, porque você nunca queria ver meus filmes!
Ok. Entramos na sala, depois de comprarmos M&M's. Enchemos nossa mão do chocolate das máquininhas de moedas de 0,25 cents. Eu comi todos os meus, matando a minha larica. E começaram os trailers. Eis que você diz:
-Vou mudar o carro de lugar.
-Quê?
-Vamos lá, vou mudar o carro de lugar.
-Como assim? Tá maluco?
-Vou mudar, vamos.
-Não! O filme vai começar! Quer mudar porquê?
-Estacionei muito longe...
-Maluco...
Fomos. Saimos da sala, e eu com as mão meladas de m&m's e você ainda com os seus. Ao passarmos pelo carinha que pegava os ingressos, você não falou nada, simplesmente abriu a mão, olhou pro carinha, olhou pra sua mão de novo e lá se encontravam dois m&m's azuis e três amarelos. Passou. Eu passei atrás, meio encacucada...Ele não deveria dizer que íamos no estacionamento e voltaríamos? Depois de não chegar a conclusão nenhuma, eu perguntei:
- Pq vc mostrou os m&m's pro cara?
-Ué, pq quando a gente voltar, eu vou mostrar de novo os m&m's e ele vai lembrar.
-Ahn...
Ele era assim. Me encantava com as maluquices. Como o despertador dele, o horário dele acordar era qualquer hora e três minutos. Nunca zerado. 6:03, 7:33, etc. Isso me enlouquecia e me apaixonava demais.
Fomos pro carro, aproveitamos o embalo, fumamos mais um, e conversando, morrendo de rir dos m&m's, mudamos o carro de lugar, e voltamos pro cinema.
No caminho de volta, ele simplesmente para, arregala aqueles olhos azuis que eu tanto amava e diz:
-Não podemos voltar!!!
-Como não?
-Não dá mais!
-Pq não???
-Eu comi os m&m's!!!
Valeu a noite. Valeu o dia, valeu todo o sentimento que eu tive por você. Você acreditava naquilo, de que adiantavam os ingressos que estavam no meu bolso, se você tinha comido os m&m's amarelos e azuis que você estava guardando com tanto entusiasmo? Ah, garoto... Como conseguia pensar nessas coisas? Como sua cabeça adulta fantasiava nossas besteiras?
E rimos, mas rimos tanto. Eu olhava pra sua carinha tão arrasado sem os m&m's, e delirava.
Eu não lembro o filme que vimos, o que eu sei é que demorei mais de dois anos pra ir ao cinema de novo, pq tudo dentro daquela salinha escura me lembra você e isso me faz entrar em pânico....
Thanks for the memories baby...

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Hey Shato!

Numa boa? Não tem absolutamente nada a ver você falar comigo no facebook... Sério, nada a ver mesmo.
Quisesse falar, falasse antes ué. Eu hein, esperei tanto, por qualquer coisa, sinal de fumaça, o caralho, mas nada, nunquinha. Pelo contrário, lá ia eu bêbada, ligando pra América. Nove mil números e eu sabia de cor, toda toda. Ligava, encarnava todo aquele personagem, pra você dizer que eu tava bêbada (me conhecia, o desgraçado...). Mas então, porra, nem mexe comigo, não mesmo. Quem te viu, quem te vê. Um ano eu achava que ia morrer de amor, no outro, eu achando tudo muito esquisito e hoje, coitado...
Vamos lá... Eu acho que eu te amei um tantinho de nada, na verdade. Mas eu me declarava mesmo, também, só tinha você. A primeira oportunidade que eu tive de pegar seu amigo lindo, eu peguei. E depois te contei, na maior cara de pau, fingindo que achava super normal, afinal, todos se beijam no Reveillon. Mas daquele jeito não, né amor? Mas e daí, você não tava lá pra ver mesmo. Se mandou pra Philladelphia pq quis. Fuck you.E depois fez aquela merda, que foi tudinho culpa minha, eu admito, mas é segredo nosso, eu admito aqui, cá entre nós. E eu me mandei pro Brasil, você era frio que só, e me esfriava em pleno calor da Califórnia.Good for you. Foi ótimo eu ter me mandando. Juro, na época eu achei que fosse morrer, que toda a minha felicidade era você. Sofri, viu? Sofri o pão que o diabo amassou, puta merda! Eu chorava tanto agarrada com aquele seu casaco... Um calor infernal aqui, e eu só dormia com aquele casaco azul marinho. Como era meu psicológico, né? Chorava tanto, minhas bebedeiras todas tinham nome: você. E o tempo foi passando e eu não te esqueci não... Passava ano, entrava ano, lá estava eu aos prantos. Eis que quando eu finalmente caí na putaria de cabeça, você me mandou aquele e-mail. Ah, baby, tava de sacanagem, né? Me amava e achava que a gente ia casar, vinha pro Brasil, estava só esperando minha resposta? Vai se fuder, né. Haja paciência. Mas eu li e fiquei lá, estática, conforme manda o figurino e chorei, claro que chorei, esperneei, claro, e não respondi. Não, não respondi. Só um tempo depois, disse que havia seguido a minha vida. Aí você ouviu... Ah, ouviu. Disse tudo que estava engasgado aqui. E nos primeiros anos, você disse que não me ligava pq não conseguia, havia tentado várias vezes, e não é que depois do e-mail você conseguiu? Milagres, milagres....E assim foi... eu fiquei um tempo abismada com tamanha coragem da minha parte e depois ficamos amigos no facebook. Uma graça. Você casou. Sim, filho da puta, um dos meus maiores medos era um dos meus amores casar, e lá foi você, de fraque. A sorte é que você tava careca e feio, como envelheceu rápido, hein? Mas eu fiquei lá, balança mas não cai. E firme e forte lhe desejei parabéns. Foi debochado, claro, mas como você vai saber? Inglês é tudo a mesma merda, não tem tom, então você deve ter achado que eu fui mesmo uma fofa. E teve um filho. Olha, que amor, um filho! Vai lá... Arrebenta! Enquanto isso eu tô aqui, recuperada e fazendo merda com os outros. A cota de merdas que eu tinha aquele ano, você fez o favor de tomar de mim e usar toda, tive que correr atrás do prejuízo
Agora olha só, não me venha com esse seu jeitinho (que eu conheço tão bem) querendo me conquistar não, viu? Porque eu vou te fuder. E quer saber? Eu sempre soube mesmo que você sentia alguma coisa por mim, Shato...
Ah, já te disse? Shato é com C.

With love,
Shata.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Desde sempre

Oi, e aí?
Queria te escrever porque eu resolvi finalmente que vou falar. Vou sim, cansei de ser a protagonista de uma novela que só eu participava. Você ali, vivendo a vida real, e eu encenando. Cansei, viu? Então agora você vai ouvir.
Eu sempre fui. Sempre, desde aquela época que você me emprestava aquela bicicleta preta enorme. Era enorme e eu tinha que subir no banco pra andar nela, eu morria de medo, de tão alta que eu ficava, mas eu encarava, porque e queria me aproximar de você. Essa história de as nossas famílias serem uma só me confundiu a cabeça toda. "Ele é como seu irmão!". Como assim, irmão? Ele nem da família é! Que coisa esquisita, no começo eu me sentia estranha mesmo, criança e sem entender nada, pra mim você era meu amiguinho, de brincar junto, eu sentia aquele treco, aquilo que não se sente por ninguém da família. Eu não quero o tempo todo tá perto da minha irmã. Eu enjoava dela, e então eu ficava com você. Ela sentia um ciúme danado, ninguém entendia como éramos tão grudados, e nossa família achando bonitinho sermos como unha e carne. A gente cresceu e nos afastamos. Eu tive muitas vezes um eca enorme de você. Que menino bobo! Ficava implicando, enchendo a paciência, bagunçando minha casa da Barbie, pegando meu batom rosa pra pintar papel. Eu te odiava, mas não consguia ficar longe de você. Eu cochichava com minhas amigas o quanto você era idiota, mas se elas concordavam a briga era feia! Só eu podia te achar idiota. E crescemos mais um pouquinho, não sei que idéia foi a nossa de estudarmos na mesma escola. Você lembra quando meu tio quis te mudar praquela escola de bacana? Você chorou tanto, que minha mãe convenceu seu pai a não te tirar. Ela me disse que você dizia que queria estudar na mesma escola que eu. Minha mãe até quis que eu mudase também, mas eu não quis, e eu ganhei a luta. Não mudou eu, e nem você. Continuamos na mesma turma. E depois veio a época de ficar com as meninas, você ficou com aquela menina da turma C, que raiva! Ela se fez de minha amiguinha pra te convencer a ficar com ela, achava que éramos primos, não sei porquê você foi inventar isso pra ela. E ela bem conseguiu, você ficou lá, que nem um palhaço e eu armando tudo. Cheguei em casa me sentindo tão esquisita, mas tão esquisita, e não entendi nada. Claro que não tive ciúme, imagina que eu ia ter ciúme de um treco que nem você. Ia nada, eu fiquei é com vontade de ficar com seu melhor amigo. Quer dizer, segundo melhor amigo, a primeira melhor amiga era eu e amigo também, eu te proibia de dizer que você tinha melhor amigo. Aliás eu mandava em você, sempre mandei. Até te bater eu já bati e você foi correndo chorar. Eu chorei mais ainda, e minha mãe me fez eu te pedir desculpas. Eu detestei aquele dia, mais ainda por ter chorado porquê te bati. Eu hein, menina boba, eu pensei. E então crescemos e você me contava das meninas que pegava. Eu morria de rir! A gente ecnhia a cara juntos, dentro de casa mesmo. Nossos pais na sala e a gente na varanda, bebendo escondido. Até aquele dia que eu me acabei de passar mal e meus pais me enfiaram debaixo do chuveiro! E você lá, bancando o bonzão.Eu olhava pra você com raiva, em vez de me defender, ficava debochando dizendo que tinha me avisado pra eu não beber, que sua tia ia ficar brava, Idiota. Depois me acorda seis da manhã mais bêbado ainda, se joga em cima de mim na cama me chamado pra piscina. Te mandei ir a merda. Eu não lembro, mas você me disse no dia seguinte. Disse também que teve que me cobrir, que eu estava praticamente pelada. Outro dia bêbado você disse que ficou me olhando, e eu morri de rir e te dei um tapa. Cheguei em casa e chorei. Chorei demais, chorei desesperada. E vieram as farras, cada um prum lado, você pegando as mulheres e eu dando pros carinhas que eu achava bacanas. Você nem tinha carro, às vezes roubava o do meu tio e a gente ia pras festas, eu não queria ficar perto de você e nem você de mim. E foi muita bagunça, muita cachaça, muita zueira, e no dia seguinte a gente se encontrava no barzinho debaixo de casa pra contar as resenhas. Eu comecei a namorar e você também, nos afastamos muito, não tinha a menor vontade de sair com vc, como dois casais, me dava nos nervos pensar isso. Mas eu era desencanada, fingia que isso era normal, eu hein, algum dia a gente ia se separar, íamos cair no mundo. Tanto é que você foi pra Austrália quando terminou e eu inventei um curso no Canadá. Um frio terrível. Mas não resisti ao seu convite pra ir pro calor e lá fui eu me mandar pra Alice Springs...Praquele calor gostoso. Foram bons aqueles dias lá, eu me diverti muito, mas esqueça,você não sabe surfar. Não sabe ué, e tem que aprender a conviver com isso, me faz passar vergonha! Em compensação os seus saltos de bungee são os melhores.
Acabei de chegar do aeroporto, minha mãe ficou me enchendo a paciência querendo que eu falasse da viagem, mas eu só faço chorar, nossos dias foram perfeitos. Perfeitos mesmo, e é engraçado como você ainda tem a mania de dormir com o travesseiro entre as pernas. Engraçado também foi a gente ter dormido junto na cama de casal no quarto do hotel, tinham duas e a outra ficou só com as malas.
A gente cresceu, não foi? Eu percebi isso quando o avião subia. E quando pousou de volta no Brasil, eu finalmente encarei a realidade.
Eu não sei viver sem você e jamais conseguiria dormir de novo, depois daquelas noites. Foi mesmo séria aquela nossa conversa? Quando você disse que era pra eu ficar, era verdade? Foi a primeira vez que vi aquele olhar, e não te reconheci, por isso tive medo e voltei.
Voltei também pra renovar meu visto. A Austrália é mesmo como você falou. E você disse que só gostava dela quando eu estava lá.
Prepare o quarto do hotel de Alice, pode ser aquele mesmo, e lembre-se das duas camas. Odeio guardar roupas em armários...

sábado, 9 de abril de 2011

Chá da tarde

-Então, é hoje a sessão de iniciantes, eu já falei sobre você com o mestre, vamos chegar lá mais cedo pra sua entrevista.
-Tá, mas ele vai perguntar o quê?
-Ele vai explicar sobre o chá, a religião, vai te fazer algumas perguntas e pronto, é simples.
-Tá...
Era uma chácara, longe da cidade, em meio ao mato tinha uma área coberta, com várias cadeiras e uma mesa no meio, com um arco escrito: União do Vegetal. Era sapo e bicho pra tudo quanto era lado, e era tudo muito normal. Famílias, muitos idosos, alguns adolescentes - que nasceram no meio - e a maioria tipo pai e mãe, muitos casais. Tive a reunião em que o mestre me explicou sobre o chá, que não era alucinógeno como os outros pensavam, que quem descobriu foram os incas, e que as duas ervas eram colhidas na Amazônia peruana. Eu estava nas nuvens, amarradona, tinham me dito que você voltava no tempo, via várias paradas e que sua vida melhorava. Na real, eu preciso me tornar uma pessoa melhor, e eu já tentei de tudo, tudinho e nada funciona, então eu apelei pra natureza, pro vegetal. Disseram que você repensava sobre suas atitudes, que achava meios para mudar o que era necessário e que você iria refletir muito sobre você mesmo. Eu achei que era tudo o que eu precisava.
Enfim, teve a cerimônia de abertura e todos tomaram o chá. Um gosto muito ruim, muito mesmo, mas deu pra engolir. E eu sabia que os efeitos iriam demorar. Sentei na cadeira, com o travesseiro que me aconselharam levar, e fiquei olhando as pessoas, algumas de olhos fechados e outros de olhos abertos. Começa uma música, do Roberto Carlos - juro, e uns vinte minutos depois ela veio, a Borracheira! Sim, borracheira é o nome da onda que você tem, que com toda a seriedade deles, chamam através de músicas.
Na verdade, eu não tava entendendo mais nada. Eram muitas formas, meus olhos fechados, formas coloridas. Sabe aquele tipo de luneta que a gente tinha quando era criança que via uma imagem e quando vc girava a lente a imagem ia se mexendo? Era aqulo na minha cabeça toda, contra a minha vontade, eu ficava tonta, tentando entender o que era aquela loucura. Um mix de coisas, formas se mexendo e eu pensei: "Fudeu, não vou voltar nunca mais!". E eu comecei a suar, tive febre, tenho certeza, aí abri os olhos pq aquelas formas coloridas estavam me deixando louca e tonta, e virei pra minha amiga:
-Vê se eu tô com febre.
-Não tá não....
Puf, voltei às formas loucas. E então meu espírito saiu, sério, eu estava encostada na cadeira, relaxada, com olhos fechados, e queria sair dali, abrir os olhos de qualquer maneira."Se mexe, vai beber uma água." " Não tenho forças!" " Eu quero me mexer, to tontaaa!" "Mexe, mexe, mexe!!!""Não dáááá!" Eu tava alucidada.
-Mestre, dá licença lá fora? - Alguém falou.
-Sim, pode ir.
E várias pessoas começaram a pedir "licença lá fora", pra ir vomitar. Sim, é sério, mais de 30% das pessoas, tem uma borracheira forte, ou o chá faz mal e eles têm que colocar pra fora. Aquilo me impressionou. Agora eram as formas e o barulho dos vômitos, que todos achavam tão normal, e eu continuava sem me mexer, até que finalmente, eu senti uma emoção muito forte, a mesma sensação de quando eu tô muito bêbada e fecho os olhos quando vou fazer xixi, vem aquele treco, igual quando se leva um susto, sabe? Então, foi o espírito voltando pro meu corpo e eu abri os olhos. Todos de olhos fechados, curtindo sua borracheira. Volto a fechar os olhos, agora quem canta é o mestre! Que parada.... O mestre cantando, aí eu já não sabia se era música do som, ou se era a voz dele e eu o via cantando, mas ainda sim era confuso demais, impossível ele estar cantando daquela maneira, que loucura... Mas ele tava e que voz alta! E então meus olhos se fecharam, começou a chover muito forte, muito mesmo e o barulho da chuva era muito forte, e eu já tava achando que era o fim do mundo, mas ao mesmo tempo eu tinha consciência de que era só uma chuva forte, muito forte, mas parecia mesmo o fim do mundo. E se acabasse ali, meu amigo, eu tava é bem pra caralho!
Nossa!!! Não acredito! O Dênis!!! Eu tinha três anos de idade, estava com um shortinho azul, sem camisa, em Saquarema, agachada com um gravetinho na mão passando no chão, e dava pra sentir tudo! O Dênis lá, agachado também, com aquele cabelo castanho lisinho! Que loucura, eu estava lá com o Dênis!!! Eu jamais lembraria em minha vida que um dia o Dênis existiu! Foi um dia que eu passei com ele, era filho dos amigos dos meus pais e ele morava lá, passamos um dia na casa deles. E aquilo era uma foto que minha mãe tinha guardado. Depois, eu creci um pouco, cheguei aos sete anos, era sexta-feira e eu tava no banheiro da minha escola me arrumando para uma festinha! Mas era o banheiro antes de ser reformado! Eu jamais lembraria que ele sofreu uma reforma! Dava pra ver a madeira da porta, descascada e eu tava muto alegre indo pra festinha! Eu revivi todos os detalhes, as roupas espalhadas pelo chão, a sensação boa de final de semana e minhas amigas lá! Uma delícia! Minha borracheira estava um arraso!
E depois, aos poucos ela foi indo embora, eu fui voltando a realidade, comecei a sentir o frio do mato, e o mestre começou a finalizar a cerimônia e cantou para que a borracheira de todos fosse embora.
Quer acreditem, quer não, minha vida tá muito calma, e tem um sentido maravilhoso... Não sei se foi meu amor que mudou um bocado, mas meu relacionamento tá perfeito! Ele é tudo o que eu quis que ele fosse, e eu sou uma pessoa calma! Viva a União do Vegetal!
Amei, de verdade, foi muito louco, uma experiência única, é uma religião séria, onde há princípios, e tudo o mais. E eu, sem uma religião fixa, estou começando a pensar na idéia de me associar à União. Eu achei tudo muito lindo, muito calmo, muito luz, paz e amor - o lema deles.
Mas que é alucinógeno é....

sexta-feira, 4 de março de 2011

Workaholic

Achei que só existia em filme pessoas que trabalham iguais loucas e não têm tempo de fazer ABSOLUTAMENTE nada o resto do dia.
Achei que era brincadeira quando diziam que o dia tinha que ter mais horas...Putaqueopariu.
Mas tudo bem, é Carnaval em Salvador, a cidade para totalmente e as pessoas que só trabalham não conseguem trabalhar nem se queiserem muito. Valeu aí.
Camarote da Skol me aguarda, que chato... Piorou pq tem show do Exalta...

Não sei se tô mais empolgada com o Carnaval ou com o fato de que vou poder respirar!
Viva!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Meu querido...

Ela estava com a vida feita, seus dois filhos já na faculdade e seu marido com o bom emprego de sempre. Resolveram se mudar, já moravam naquele apartamento fazia quase vinte anos e então, dentro de uma caixa, que estava dentro de outra caixa, ela achou aquele envelope. Ela resolvera não jogar fora, mas esconder de um jeito que a convencia de que aquilo não existia mais. Nem sabia porque resolvia sempre enganar a si própria daquele jeito tão infantil, mas ela escondeu lá em cima do armário, dentro daquela caixa velha, mas achou. O envelope já amarelado fez passar um filme em sua cabeça: descalça, descabelada, pulseiras no pé, cabelos compridos, a areia macia, e as gargalhadas, ah... as gargalhadas! Não sabia mais o que era isso fazia muitos anos. Só sabia o que era uma risada a toa, um sorriso educado, nada além...  Não ia encarar, claro que não. Seria um divisor de águas abrir aquele envelope, não mesmo. Mas abriu.
"Oi querido,
Gostaria de saber como você e todo o meu amor estão. Sim, todo o meu amor está com você.
Gostaria de saber dos seus pelinhos dourados, e dos seus pés sempre sujos....
Eu não vou lhe entregar esta carta... Depois de todo o meu esforço de te deixar ir, eu não poderia fazer isso.
Gostaria que soubesse que não fui com você porque precisava de mais responsabilidade na minha vida. Não poderíamos viver de amor, apenas, meu bem. Eu não podia deixar meus estudos, preciso me formar, já tenho um emprego... Eu queria mesmo era que você entendesse, mas você não entendeu.
Eu te amo com toda a minha alma e sei que não vou suportar a saudade de você e do meu amor. Foi muito difícil pra mim te dizer tudo com tanta racionalidade, depois daquela temporada que passamos acampando pelas cachoeiras da Chapada, e daqueles dias na praia, em que dizíamos que a cama perfeita era uma "canga na areia", e que teríamos que arranjar um jeito de colocar a cama perfeita na nossa casa... Foi um pouco bobo da minha parte. Era óbvio que você não estava acreditando, eu tava mentindo descaradamente quando disse que preferia uma vida estável, com tudo bem certinho.
Você me conhece como ninguém, e olhava pra mim sem entender nada. Foi quando se virou e foi embora pra sempre. Sua mochila velha e rasgada implorava pra eu ir com vocês e eu a olhava tendo a certeza que todo o meu amor estava lá dentro.
Nem olhou pra trás, eu fiquei lá, parada, tentando me convencer de que tinha tomado a atitude certa, mesmo tendo a certeza de que ficaria sem amor pro resto de minha vida.
Te escrevo pra aliviar um pouco a minha dor. Meus olhos não se cansam de chorar. Acho que não vou nunca mais pra praia, pois sempre vou imaginar a nossa cabana lá, toda de madeira, com um banquinho na frente...
Me desculpe por tudo, me desculpe por te fazer sofrer.
Cuide bem do meu amor."
Ela não sabia....
Não sabia que eles sairíam de mãos dadas com mochilas velhas e rasgadas, parariam numa praia e dormiriam na cama perfeita por algumas noites... Ele teria a idéia de ensinar surf, ela iria organizar a escolinha. Eles eram tão perfeitos e tinham uma harmonia tão linda, que encantava quem os via. E alugariam uma cabana, não era na areia, como queriam, mas era na rua de trás, embaixo de árvores, pois o sol iria aquecer muito a madeira. Organizariam luais, com violão e bebidas típicas. Seriam convidados pra viver na Indonésia, e trabalhar numa ONG que ensinava Surf pra crianças carentes. Iriam, com as mesmas mochilas velhas. E de lá, viajaríam pelo mundo, ensinando crianças carentes, aprederíam várias línguas, teriam muito dinheiro, que não serviria para luxo, mas para viver melhor. Felicidade era uma coisa tão grande e eles tinham tanta, que resolveriam espalhar pelo mundo, com seus dois filhos. Criariam suas próprias ONGs e terminariam suas vidas confortavelmente, no lugar que quisessem e olhariam pra trás tendo a certeza que fizeram a diferença e distribuiram amor pelo mundo.
Ela fechou a carta e com os mesmos pés descalços, foi até a praia. E percebeu, que com tudo que ela ganhou, só perdeu.
Tarde demais.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Oi Fred!

E aí? Tudo bem?
Me desculpe escrever tanto tempo depois. Faz o quê? Uns onze anos? Foi mal mesmo, mas sabe o que foi? Aquel trilhões de e-mails que vc me mandou, eu nem li. Aí não soube o quão fudido eu te deixei... Mas também nem me importou muito na época, eu fiquei com um gatinho que hoje é ator da Globo naquele 18 de fevereiro... Agora até deu pra me perdoar um pouco, né? Ou não? Ah, nem venho aqui te pedir desculpas não, vim te dizer o que aconteceu mesmo. Talvez você tenha sido o primeirão da minha lista.  Talvez não, com certeza.
Então, foi o seguinte, você foi a primeira pessoa por quem eu fui apaixonada, e paixão acaba. Quando se tem 17 anos, ela acaba e por você ser imatura, nem dá explicação, mete o pé mesmo, e foi isso que eu fiz. Mas como homem é sempre burro, você ficou lá, se perguntando o porquê de tudo e citando Aristóteles.
Numa boa? Aristóteles e eu não temos absolutamente nada a ver...Acho o cara um pé no saco.
Mas foi isso, querido. A paixão acabou da noite pro dia, um dia eu te amava e achava lindo você tocando sax, falando francês e jogando golfe e no outro dia eu não te amava e achava um pouco brega você tocar sax e jogar golfe. Francês eu continuava achando um charme, mas isso eu não disse pra ninguém.
Ah! Obrigada pela sua carta, foi fofa. Foi digna de alguém que era pra ser o homem da minha vida, você tá de parabéns. Me fez chorar, aliás, me desesperou de tanto chorar, nunca tinha o feito por ninguém. Sério, mandou bem. Eu lembro de ter deitado na cama e achado que ia morrer, pra depois a guardar e não abrir por muitos e muitos anos.
Ô Fred, é um porre falar de você porquê eu me sinto eternamente culpada de ter estragado tudo, sério mesmo, minha mãe me enche o saco dizendo que você era perfeito e não entende porquê eu te larguei.
Você é chato. É muito chato. Um chato!!! Que merda, um chato, chato, chato!!!!!! Chato! Puta que pariu! Por que eu fui tão sacana com você? Por que eu fui reler sua carta muitos anos depois e vi um pedacinho de papel nunca antes visto, escrito:"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Pequeno Príncipe." Porra!!! Custava ser menos inteligente? Eu tinha mesmo que passar alguns anos da minha vida sentada na janela ouvindo você tocar sax lá do sétimo andar?
Ok, estou te promovendo. Meninas, entrem na fila, ele é mesmo tudo isso.
Não vou nem dizer que você é lindo, carinhoso, viaja bastante, se formou em economia, rico, inteligente, dirige um carrão e além de tudo isso, como se não bastasse mais nada, é educado.
Enfim, pra deixar bem claro e terminar de formar toda a imagem podre que você tinha de mim depois de eu ter te deixado entregue às traças, eu resolvi te escrever, você resolveu corresponder, me chamar pra sair, eu por minha vez, aceitar e você ter ido me buscar em casa no seu carrão.
Bem, fomos beber, eu fiquei completamente bêbada, dei pra você na escada do nosso antigo prédio e eu só lembro de você me acordando, na porta do meu prédio atual. Eu, que naquela época sonhava em fazer amor com você e você dizia me respeitar, fazia promessa de não tocar em mim e ficávamos nos beijando por horas depois da piscina. Eu, que esperava a manhã inteira o interfone tocar e ele tocava mesmo nas primeiras horas da manhã, e eu ouvia sua voz tímida me chamando pro play. Eu, que era a sua dupla no war e você roubava descaradamente, e a gente ganhava sempre morrendo de rir. Eu, que queria tomar açaí todos os dias, e você que me chamava pra ir pra praia e levava guarda-sol. Eu, que te vi jogando Taco no play e corri lá pra baixo, sem nem conhecer ninguém e fiquei só te olhando, com cachos o cabelo. Eu, que me apaixonei perdidamente e morreria por você, e você, que morreria por mim na mesma intensidade.
Consegui, né? Te fiz me esquecer de vez? Viva minha falta de escrúpulos!
E nem chato você é....